Viajar muitas horas de carro com uma criança muda completamente a forma como se planeia o dia. O ritmo já não é apenas o dos adultos, nem aquilo que o GPS diz. Há fome, sede, sono, casa de banho, tédio, enjoo e aquela ansiedade normal de querer chegar ao destino.
No nosso caso, uma das coisas que melhor funciona é sair muito cedo, normalmente por volta das quatro ou cinco da manhã. A lógica é simples: fazemos uma boa parte da viagem enquanto a criança ainda dorme. Quando acorda, já passaram algumas horas, fazemos uma paragem mais demorada para tomar o pequeno-almoço, ir à casa de banho e esticar as pernas, e o resto do dia torna-se muito mais fácil de gerir.
Não é uma fórmula que funcione para todas as famílias, porque cada criança é diferente. Mas há uma ideia que, para mim, faz toda a diferença: a viagem tem de ser organizada também à volta da criança, e não apenas à volta do destino.
Começar cedo pode mudar completamente a viagem
Quando conseguimos sair de madrugada, normalmente fazemos quatro ou cinco horas com muito menos interrupções. A criança ainda vai a dormir, o trânsito pode estar mais tranquilo e nós conseguimos avançar sem aquela sensação de que o dia já vai a meio.
A primeira paragem costuma acontecer quando ela acorda. E essa não é uma paragem de cinco minutos. É altura de tomar o pequeno-almoço, ir à casa de banho, mexer as pernas e começar uma nova fase da viagem.
Depois disso, se a criança estiver bem-disposta e descansada, ainda aguenta mais algumas horas. Para nós, uma média de cerca de oito horas de viagem num dia já é mais do que suficiente. Prefiro sair cedo, conduzir com calma e terminar cedo do que transformar o dia inteiro numa corrida para chegar.
As paragens devem acompanhar a necessidade, não apenas o relógio
Não costumo definir todas as paragens com antecedência. Com uma criança, isso seria pouco realista. Posso ter uma ideia geral do percurso, mas se ela acorda, tem fome, precisa de ir à casa de banho ou simplesmente já está saturada, é altura de parar.
A primeira paragem do dia, depois de acordar, tende a ser mais completa. As seguintes acontecem quando há necessidade. O importante é não insistir demasiado em cumprir um horário que já deixou de fazer sentido.
Se o destino final estiver ao alcance num único dia, gosto de parar cedo e ainda aproveitar um pouco o local. Para mim, chegar completamente esgotado ao fim do dia tira parte do prazer à viagem.
O que deve estar sempre à mão
Uma das coisas que se aprende depressa é que não interessa apenas levar o que é preciso. É preciso ter o essencial acessível. Não adianta levar água, comida ou toalhitas se estão enterradas no fundo da mala.
- Água, sempre num sítio fácil de alcançar;
- Comida e snacks, porque a fome aparece quase sempre antes daquilo que tínhamos planeado;
- Toalhitas ou panos, para limpar mãos, cara, pequenos derrames ou qualquer imprevisto;
- Uma muda de roupa acessível, sobretudo em viagens maiores;
- Almofada de cabeça ou apoio de pescoço, se a criança a usar confortavelmente;
- Óculos de sol, úteis durante todo o ano quando há muito encandeamento;
- Medicamentos habituais ou essenciais que a criança possa precisar, guardados de forma segura e fora do seu alcance;
- Documentos e objetos realmente importantes, sem ficarem misturados com a restante bagagem.
Em viagens mais longas, uma pequena bolsa apenas com estas coisas poupa muitas aberturas de mala e muita irritação.
A fome é um dos imprevistos mais previsíveis
Se há coisa que aprendi é que uma criança pode ter fome muito antes da hora a que nós tínhamos pensado parar.
Por isso, hoje considero comida e água tão importantes como qualquer outro item da viagem. Não é preciso transformar o carro numa despensa, mas convém levar opções simples que a criança já conhece e tolera bem.
Fruta fácil de comer, sandes, bolachas simples ou outros snacks habituais podem evitar aquela situação em que ainda faltam muitos quilómetros para a próxima paragem e, de repente, o ambiente dentro do carro muda completamente.
Se quiseres preparar parte da comida antes de sair, já temos no blog um guia sobre como preparar refeições para vários dias na estrada.
O tédio também faz parte da viagem
Uma criança não vive oito horas de estrada da mesma forma que um adulto. Para nós, a viagem pode ser conversa, música e paisagem. Para ela, ao fim de algum tempo, tudo começa a parecer igual.
Por isso gosto da ideia de levar atividades que não dependam apenas de um ecrã. Jogos de palavras, procurar objetos pela janela, escolher quem encontra primeiro determinada cor de carro, adivinhas ou pequenos desafios em família podem tornar parte do percurso mais leve.
Um tablet ou outro dispositivo também pode ter o seu lugar, sobretudo numa viagem longa, mas não precisa de ser a única solução. O melhor é variar.
Enjoo: quando aparece, todo o plano muda
Já nos aconteceu haver episódios de enjoo, e isso lembra-nos rapidamente que o plano da viagem é sempre secundário em relação ao bem-estar de quem vai no carro.
Nessas situações, o mais importante é parar quando for necessário, dar tempo para recuperar e não tentar compensar depois o tempo perdido conduzindo com pressa. Se a criança tem tendência para enjoar, vale a pena preparar a viagem antecipadamente e, se necessário, pedir orientação a um profissional de saúde sobre a melhor forma de lidar com isso.
Antes de pensar na criança, confirma que o carro está pronto
Há uma parte da preparação que muita gente deixa para segundo plano: o próprio carro.
Antes de uma viagem longa gosto de confirmar o básico: estado e pressão dos pneus, níveis, luzes, escovas, desgaste visível e se há algum sinal de que o carro precisa de manutenção. Travões, pneus e outros componentes de segurança não são coisas para descobrir no meio de uma viagem.
Também é importante confirmar que o sistema de retenção da criança está corretamente instalado e adequado à criança e ao veículo. As regras variam entre países, por isso numa viagem internacional convém verificar a legislação aplicável ao percurso.
Se estás a preparar uma viagem maior, este artigo complementa bem o nosso guia sobre o que levar numa viagem longa de carro.
Não leves tralha. Leva o que realmente resolve problemas
Um dos conselhos que daria a qualquer família é não transformar a preparação numa lista interminável.
É fácil cair na tentação de levar brinquedos a mais, roupa a mais, comida a mais e dezenas de coisas “só para o caso”. Depois o carro fica cheio e, quando precisamos de alguma coisa, não sabemos onde está.
Prefiro pensar assim: o que é que pode acontecer durante o próximo bloco de horas e o que é que preciso de ter rapidamente à mão para resolver?
Água, comida, higiene, conforto, distração, medicação habitual, documentos e segurança. O resto pode ficar organizado na bagagem principal.
Organiza a viagem à volta da criança que tens, não da criança ideal
Há crianças que fazem horas de carro quase sem reclamar. Outras começam a ficar impacientes muito mais cedo. E é precisamente por isso que não existe uma única forma certa de organizar uma viagem.
Se a criança é tranquila, talvez consigas fazer blocos maiores de estrada. Se é mais irrequieta, sair de madrugada, prever mais paragens e levar mais formas de entretenimento pode fazer uma diferença enorme.
O melhor planeamento é aquele que parte da criança real que vai contigo.
Três coisas que eu faria sempre
- Organizar a viagem em função da criança. É normalmente quem sente mais o cansaço, a fome, a sede e o tédio.
- Levar o essencial acessível, mas sem encher o carro de tralha. Água, comida, higiene, conforto, entretenimento e medicação habitual resolvem a maior parte das necessidades.
- Verificar o carro antes de sair. Uma viagem longa começa antes de ligar o motor: pneus, níveis, manutenção e segurança devem estar tratados.
Uma viagem tranquila não é uma viagem sem paragens
Com crianças, tentar fazer tudo o mais depressa possível nem sempre torna a viagem mais rápida. Às vezes acontece exatamente o contrário. Em percursos muito longos, também pode fazer sentido dividir a viagem em dois dias.
Uma pausa no momento certo, um pequeno-almoço sem pressa ou alguns minutos para sair do carro podem evitar horas de mau humor depois.
No nosso caso, sair muito cedo, aproveitar as primeiras horas enquanto a criança dorme e aceitar que o resto da viagem tem de acompanhar o ritmo dela funciona bem. Noutra família pode ser diferente.
O importante é chegar ao destino com vontade de começar a aproveitar a viagem — e não com todos cansados uns dos outros antes das férias começarem.
Checklist rápida antes de sair
- Água e comida acessíveis;
- Toalhitas ou panos e uma muda de roupa;
- Atividades simples para ocupar o tempo;
- Medicação habitual e essenciais da criança;
- Óculos de sol e apoio confortável para descansar;
- Documentos necessários para a viagem;
- Sistema de retenção corretamente instalado;
- Pneus, níveis, luzes e manutenção básica do carro verificados.
Perguntas frequentes
Qual é a melhor hora para começar uma viagem longa com crianças?
Depende da rotina da criança e de quem conduz. No nosso caso, sair por volta das quatro ou cinco da manhã funciona bem porque permite fazer várias horas enquanto ela ainda dorme. O mais importante é que o condutor tenha descansado e esteja em condições de conduzir em segurança.
Devo planear todas as paragens?
Não necessariamente. É útil conhecer o percurso, mas com crianças convém manter flexibilidade. Fome, casa de banho, enjoo ou simplesmente cansaço podem obrigar a parar antes do previsto.
O que não pode faltar dentro do habitáculo?
Água, alguma comida, toalhitas ou panos, uma muda de roupa e aquilo de que a criança possa precisar rapidamente. O essencial deve ficar acessível sem ser necessário desmontar a bagagem toda.
